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  • Roni Carlos Costa Dalpiaz

UMA ANTIGA FOTOGRAFIA

Uma antiga foto de Torres foi encontrada em um velho álbum de família. Com ela, um pequeno bilhete em uma folha amarelada pelo tempo descrevia o dia em que a foto foi tirada.



“Era uma manhã ensolarada de dezembro quando cheguei no pacato balneário de Torres. O único jeito de chegar nesta cidade era pela praia, não havia uma estrada. E foi o que fiz.

Na chegada me deparei com um imenso atoleiro, o que me fez quase entrar no mar com o meu Ford modelo T recém saído da revenda. Fiz o contorno por trás da pequena Guarita e saí na estrada que levava até a entrada da cidade.

No caminho passei pela praia da Cal, onde duas choupanas me chamaram a atenção. Elas não eram novas, por sinal já estavam bem velhinhas, mas, pelo visto, em breve seriam substituídas por outras melhores, pois ali ao lado já tinha muita madeira para construção.

Para marcar minha chegada, resolvi fazer uma fotografia do local. Então procurei um lugar mais alto, pois queria que aparecesse um pouco da paisagem torrense e, também, o meu carro novo. Enquadrei, como fundo, o morro onde está o farol da cidade, e a praia, quase deserta, completou a foto que levarei como recordação da minha primeira visita à Torres.

Torres, verão de 1924.”

Esta poderia ser a história real desta fotografia antiga da cidade de Torres.

Mas não é.

É apenas uma tentativa de reconhecimento do local, da data e do motivo desta foto ter sido feita. Pode até ter um pouco de verdade nesta pequena história, porém foi só um exercício de imaginação.

Uma foto pode dizer muita coisa sem falar uma única palavra.

Assim como esta, outras tantas podem ser localizadas, interpretadas e datadas, a partir da história documentada e da história oral repassada pelos próprios autores ou por seus familiares. Através destas fotos podemos contar e conhecer um pouco mais da história de um lugar e de seus moradores.

Hoje em dia, ninguém mais pensa porque tal foto foi feita. Simplesmente faz. Se não ficar “boa”, faz outra, mais outra, até ficar do seu gosto.

Antigamente não era bem assim. As máquinas eram poucas e as chances de fotografar alguma coisa era proporcional. Ou seja, quanto mais antiga, mais escassa. As primeiras décadas do século XX em Torres, foram pouco registradas, e por este motivo, quando aparece alguma, pensa-se que é de uma década mais recente, como 50, 60 ou 70.

Existem vários grupos do facebook que publicam essas fotos antigas, a maioria se concentra nestes anos, apenas uma ou outra são das primeiras décadas do século passado.

A foto descrita no início desta coluna foi retirada do grupo do Facebook chamado “Fotos Antigas de Torres-RS”.

Fiz uma rápida análise e identifiquei alguns elementos que determinaram um intervalo de tempo em que esta foto teria sido feita. Entre os anos de 1910 até o final dos anos 1920, não mais do que isso. Dei um palpite de que seria no ano de 1927.

Os elementos que destaquei foram o automóvel, o farol e as choupanas. O automóvel nas areias da praia da Cal é possivelmente um Ford modelo T, que foi fabricado entre os anos de 1908 a 1927 e deve ter chegado por aqui neste período de tempo, pois começou a ser fabricado no Brasil em 1919.



O morro do Farol, ao fundo, é outro elemento que, embora bem borrado, mostra uma silhueta de um farol acompanhada de um largo muro escuro. A silhueta mais alta sem dúvidas é o farol que dá nome ao morro. Lá existiram três estruturas, uma em 1912, outra em 1928 e a terceira em 1952. As três estiveram lá no morro com o cemitério ao lado (que funcionou por lá até 1960, mais ou menos), mas apenas uma estava lá com outras três casas que eram dos faroleiros: O farol de 1912. Na foto se vê uma silhueta muito maior do que o muro do cemitério. Isso é porque na silhueta estão as casas que ficavam ao lado do farol. Nesta época também existe uma foto de turistas em frente ao farol e seus carros eram iguais ao da foto: Ford modelo T.



O terceiro elemento analisado foram as precárias choupanas. Elas são construções muito semelhantes a outras encontradas em fotos de Torres datadas como da década de 1920.

Com estes elementos fiz a minha “datação” da foto: 1927.



Ao colocar o nome do autor da foto, T. Panitz, encontrado no canto direito e uma breve pesquisa na internet, consegui o ano em que ela foi feita: 1924.

Errei por três verões!


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