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  • Roni Carlos Costa Dalpiaz

UM RIACHO CHAMADO “VALÃO”

Antigamente a única palavra que me vinha na mente quando alguém citava o tal “Valão”, era fedor. Nunca pensei em nada melhor. Até hoje.



Minha irmã mora, nestes tempos de pandemia, às margens do “Valão” e quase às margens do rio, ou seja, quase no encontro do “Valão” com o rio Mampituba. E, por este motivo, ela tem grande apreço pelos dois. Não raramente ela me envia fotos com famílias de capivaras em frente à sua casa. É, as capivaras enfrentam as enlameadas e impuras águas do “Valão” indo e vindo à procura de alimentos e, talvez, de descanso.

Eu sempre achei que às margens do “Valão” não seria o melhor lugar para se morar, pois ele nunca foi um exemplo de limpeza. E como consequência, odores, insetos e até alguns animais peçonhentos poderiam completar o pacote desagradável.

Mas espera aí, isso não deveria ser assim. Quando que este “Valão” ou canal foi esquecido pelas administrações municipais? Quando que de riacho ou curso d'água ele se transformou em “Valão”.

Fui pesquisar nos livros antigos, principalmente no livro de Ruschel e encontrei algumas informações. Mas queria mais, então falei com meu amigo Bento Barcelos (o nosso escriba) e ele adicionou outras e ainda, me passou outro contato. Falei com minha colega dos tempos de CESD, Josi Farias, filha de Samuel Farias, que me passou mais informações coletadas por ela no grupo do Facebook (Fotos Antigas de Torres). Falei, também, com minha amiga Sandra Perrenoud que conhecia mais um pouco da história do D.N.O.S. onde seu falecido marido trabalhou. Como fruto desta pesquisa informal, eu lhes repasso, a seguir, um pouco da história do conhecido “Valão”.

Não sei, mas para mim, chamar um riacho/canal de “Valão” é um tanto pejorativo. Talvez nem tenha sido por real intenção, mas o tempo transformou o curso d'água em simplesmente: "Valão'', apesar de ter o nome fantasia de “Riacho”.

Mas a história deste curso d'água não é tão nova e remonta a muitos anos atrás. Segundo Ruschel, excetuando a parte alta da cidade e as praias, o resto era tudo banhado, inclusive a lagoa do Violão. Suas margens não eram fixas e se fundiam com as tiriricas, sendo difícil definir onde começava a lagoa ou terminava o banhadal. E, confundido também entre o tirirical, estava este curso d’água, que assim como a lagoa, foi aparecer (com margens definidas) em fotos no ano de 1943.

Uma das fotos a que me refiro é a que mostra a cidade vista do alto (até escrevi uma coluna falando sobre ela). Nela se vê os morros, que deram nome a cidade, o núcleo urbano, parte do mar, uma extensa área de dunas e a lagoa do Violão. Da lagoa vê-se uma “linha tortuosa” saindo da sua margem oeste indo terminar em uma pequena sanga, a sanga da água boa (de onde, antigamente, era extraída a água pela Corsan para abastecimento da cidade). Essa sanga possivelmente se encontraria com o rio Mampituba bem mais à frente do que acontece hoje com o “Valão”.

Embora este antigo curso d’água tenha existido, ele não é o mesmo que deu origem ao conhecido “Valão”. Com informações do Bento, foi realmente na década de 40 que se abriu, “a pá”, um novo canal no traçado do atual. E pelo que se sabe, o outro acabou secando e sendo, aos poucos, aterrado até desaparecer totalmente em meio ao crescimento da cidade.

Somente na década de sessenta, ainda na gestão do prefeito Antônio Almeida (1959-1964), é que foi construído a parte de engenharia do canal. Este trecho, da lagoa até a avenida Barão do Rio Branco, foi construído de 1962 a 1964, quando foi inaugurado. A utilidade inicial do canal, assim como o antigo, era equilibrar a vazão das águas da lagoa, porém ao longo dos anos ele também serviu para escoar o esgoto clandestino rumo ao rio e depois ao mar.

De lá para cá, ele foi esquecido e negligenciado de todas as formas. Todos os esgotos das casas próximas foram (e alguns ainda são), anos e anos, despejados neste canal. Todo o tipo de entulho foi sendo encontrado no seu leito. Até árvore, eu vi nascer e crescer dentro dele.

Apesar de ignorado, o “Valão”, às vezes grita da forma que consegue. Transbordando ou desbarrancando, ele chama a atenção das autoridades e dos moradores: Olha eu estou aqui, não vão me ajudar?

A parte que não foi edificada, da avenida até o rio, está em pior estado. Não que o resto esteja bom, mas porque esta precisa de um olhar mais apurado. Suas margens estão se desfazendo, caindo no leito e derrubando as árvores que ali estão. Esta parte do “Valão”, embora margeie a Câmara de Vereadores da cidade, não é notada por eles. Quem sabe agora, com “vassouras novas”, ele possa ser visto e ajudado de alguma forma. Mas não adianta tapá-lo, isso só esconderia a sujeira para “baixo do tapete”, tem que ser feita uma nova destinação e uma nova significação ao “Valão”. Paisagismo, limpeza, fechamento dos esgotos clandestinos que ainda possam existir, e entregá-lo de volta a todos os moradores, quem sabe com uma bela calçada em suas margens, sem tapá-lo totalmente (ele também precisa respirar).

Certamente não faltarão belos projetos que possam incluí-lo novamente na paisagem e na vida torrense, assim espero!

Curiosidades

● Em 1860 a lagoa ainda sem nome, aparece novamente em um mapa do topógrafo francês Charles Démoly, grafada como Lagoa das Torres e já aparecia o canal como um escoadouro que se unia ao rio Mampituba.

● Alfredo Varela, em 1897 também relata a existência do canal que ligava a lagoa ao rio: “...a lagoa das Torres, junto a vila deste nome; pequena, mas funda, manda o excesso das águas ao Mampituba, por estreito canal.”

● A avenida do Riacho, é oficialmente avenida Auguste de Saint-Hilaire, botânico e naturalista francês que descreveu em 1820 a lagoa do violão, ele empresta seu nome a todo o trajeto do canal “Valão”.

● S.N.M (Serviço Nacional da Malária) e D.N.O.S. (Departamento Nacional de Obras e Saneamento) através do escoamento das várias pequenas lagoas resultantes do grande banhado, é que fixaram as margens da lagoa resultando no formato do violão. O D.N.O.S. foi responsável pela construção do canal em 1940/50.

● A lagoa só recebeu o nome “do Violão” por volta de 1940.


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