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  • Roni Carlos Costa Dalpiaz

O CASTELINHO NA PRAIA



Os lugares mais bonitos de Torres estão à beira mar. A famosa praia da Guarita, a praia Grande, a prainha e a praia da Cal fazem desta costa, uma das mais formosas de todo o Brasil. O olhar da cidade para estes locais turísticos se aguçou a partir do turismo balnear implantado pelo Picoral em 1915. Com isso os frequentadores do Balneário Picoral foram gostando do local e construindo seus chalés, primeiramente na parte alta da cidade, se espalhando pela prainha e mais tarde para a parte baixa da beira mar. Lá pelos anos 20, a praia da Cal era só areia e mar, mas com o passar dos anos as dunas foram domadas e moradores e veranistas foram, aos poucos, construindo suas moradias.

Foi aí que, no final dos anos 50, um casal resolveu construir sua primeira casa de praia em Torres, mais precisamente na praia da Cal. O senhor Roberto já tinha vindo para Torres em sua meninice, passando um mês nos chalés do Picoral bem na beira do mar, na praia Grande. Gostou tanto que prometeu um dia construir um chalé à beira mar para veranear.

E chegara o dia. Muitas eram as opções, porém havia uma nova moda influenciando as construções naquela época. O “estilo missões”. O nome do “estilo missões” vem de sua denominação norte-americana: Missions Revival. Sua origem nos Estados Unidos remonta a década de 1890. Na mesma vertente neo-colonial também figura o “neo-colonial hispânico”, “hispano-americano” ou “espanhol”, na época conhecidos como “estilo mexicano” e “bungalows californianos”.

Este estilo já era frequentemente encontrado em construções tanto em Porto Alegre e região metropolitana quanto no litoral e, portanto, foi o escolhido.

O “bungalow” (ou bangalô) foi então construído, aos pés da torre do meio em frente à praia da Cal.

A construção, inspirada em outras casas que já existiam na cidade, possuía um avarandado na entrada, poucos cômodos e um belo jardim em toda a volta. Um muro baixo e bem construído cercava, sem esconder, o belo bangalô.

Pintado da cor bege (ou creme amarelado), o bangalô, parecia desaparecer entre as finas areias da praia da Cal, mas destacava-se ao contrastar com o verde do morro. Porém faltava alguma coisa para torná-lo singular. A bela esposa de Roberto teve uma ideia: vamos fazer uma alta torre no lado esquerdo do chalé, e rodeá-la de janelas para poderemos avistar a faixa de areia, o mar e os morros com maior amplitude. E foi feita.

De longe, o bangalô, parecia um pequeno castelo a beira mar, um castelo de areia a beira mar: Um castelinho. A partir de então, o bangalô, passou a ser chamado simplesmente de “Castelinho”.

Nasceram os filhos, vieram os netos e o bangalô sempre ali, disposto a receber e abrigar quem viesse. Nos ensolarados verões ou fora de temporada.

A cidade cresceu à sua volta. O Parque da Guarita foi criado e muitos bangalôs, chalés e casas foram destruídos ou remanejados para outros locais, mas ele ficou. Era o símbolo da época em que se podia construir em qualquer lugar da cidade, tanto que ele foi construído praticamente dentro do mar.

Velho e esquecido durante anos, o Castelinho, foi se deteriorando até tombar. Mas não foi o mar quem o derrubou reivindicando seu lugar, foi o homem. Não o mesmo que o construiu, outros que não o valorizaram.

Essa poderia ser a história do antigo Castelinho da praia da Cal. Mas não é.

Imaginei esta história para mostrar para aqueles que acham que turismo em Torres é só sol e mar. Como dizia Ruschel, Torres tem história, tem cultura, tem natureza, tem lazer. E isso tudo é turismo.

Neste caso a verdadeira história poderia ser melhor pesquisada e certamente narraria algo parecido com o que imaginei. Retornaríamos aos tempos dos primeiros veranistas e moradores da conhecida praia da Cal e seguramente conheceríamos melhor a nossa história.

Cada antiga casa, cada antigo prédio que é destruído, é destruído com ele um pouco da história da cidade, é destruído o turismo, é destruído o imaginário das pessoas, é destruída a cultura. Nosso patrimônio edificado tem um grande potencial turístico e pode complementar muito bem os produtos e atrativos turísticos que já temos.

Será que os turistas/veranistas conhecem nossos prédios históricos? Eu diria que poucos, nem mesmo nós torrenses conhecemos a história de alguns.

Nossa sorte é que ainda temos vários prédios que podem nos contar suas histórias e até a própria história da cidade. A igreja matriz São Domingos, por exemplo, tem esse poder. Ela está ali há quase duzentos anos, e presenciou a passagem de várias figuras ilustres da cidade, do estado, do país e até do mundo. A casa número 1, onde viveu o famoso Alferes Manoel Ferreira Porto é outro prédio impregnado de história. Este, esquecido e maltratado durante os anos, mas com um grande potencial turístico/histórico/cultural. A antiga casa de cultura, casa da terra, morada do acendedor de lampiões, Elói Krás Borges, ainda de pé e suas paredes devem ter ouvido muito história da cidade, pois até abrigou durante alguns anos o jornal O Torrense.

Esses são alguns dos mais antigos, mas existem outros “menos antigos” que também estão de pé e fizeram e ainda fazem parte da nossa história. Só que, assim como os outros, estão desaparecendo da noite para o dia. Sobraram poucos prédios, e por este motivo poderiam facilmente serem preservados, mas não são. É uma pena que eles não sejam protegidos de maneira eficiente.

Uma pena, pois perdemos a chance de visitá-los (conhecê-los) e ouvirmos, da boca de profissionais, belas (e verdadeiras) histórias desses prédios que testemunharam boa parte da história da cidade.

Isto é Turismo, com certeza!


Fonte: Blog Dzeitrs: Um pouco do Estilo Missões.



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