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  • Roni Carlos Costa Dalpiaz

O CINQUENTENÁRIO DO PARQUE DA GUARITA

Tu conheces DKW? Eu conheço, e foi com uma delas que conheci a praia da guarita. Meu tio Ivan e minha tia Zeni, vinham todos os verões com minhas primas para Torres a bordo de uma DKW (a Vemaguet). E foi na DKW que fui, com eles, conhecer a famosa praia da Guarita.

Eu já morava aqui, meus pais, assim como a maioria dos torrenses, trabalhavam muito no verão e não tinham tempo para “veranear”, assim sendo, era com meus tios que eu ia à praia e foi através deles que conheci, e aproveitei, o mar verdinho da praia da guarita.



Com o passar dos anos, passei a visitar frequentemente a praia da guarita que era a mais famosa e frequentada tanto pelos torrenses como pelos veranistas e turistas. Porém, apesar das belezas, não era a mais popular. As areias da praia Grande, elitizadas pela presença forte da SAPT, com sua sede e seus guarda-sóis, era a mais popular. Embora não muito democrática. Seu uso era da seguinte forma: pela manhã os veranistas/turistas tinham a “prioridade do uso” e no período da tarde era a vez dos trabalhadores torrenses e das funcionárias domésticas (que vinham com seus patrões “veranear”). Mas este é um assunto para outra coluna.

Voltando à praia da Guarita.

Poucos anos depois da minha primeira visita à praia da Guarita, foi iniciada uma pequena revolução no local. Na época, eu não tinha a menor ideia do que se tratava. Ergueram um extenso tapume em volta de uma grande área próxima à faixa de areia. O parque foi todo cercado. A estrada que passava encostada à torre sul e que servia para se chegar à praia da Itapeva, foi fechada pela cerca. Uma nova estrada de chão foi construída, costeando esta cerca, abrindo novamente um acesso à praia da Itapeva.

Um certo senhor, alto e magro, usando um chapéu esquisito, parecia ser o responsável por toda aquela mudança (o Lutzenberger). Diziam que estava sendo construído um Parque Estadual, e que além das mudanças visíveis, outras estavam por vir.

Uma mudança visível foi o paisagismo, feito por Burle Marx, inclusive incluía um Jardim botânico com espécies nativas dali e da região do litoral norte. Um caminho entre os morros foi construído para, futuramente, ser utilizado para o deslocamento dos turistas. A ideia inicial, diziam, era a implantação de um pequeno trem. Ele iria fazer o trajeto levando e trazendo os turistas do início do parque até a beira da praia. Isto nunca aconteceu.

Foi construído, também, um belo anfiteatro no coração da praia, próximo a torre da guarita. Margeado por um pequeno lago, o palco do anfiteatro era envolto por uma arquibancada natural coberta de grama. Muitas temporadas de verão foram abertas neste local ao som da OSPA.

Um belo e funcional restaurante foi construído próximo ao anfiteatro. Seu telhado de palha santa fé e paredes de pedra basáltica, harmonizavam com o entorno.

Na entrada do parque, construíram uma recepção nos mesmos moldes do restaurante, pedra e santa fé. Não era um pórtico, mas fazia a função.

Estas foram as mudanças visíveis, as outras surgiriam com o tempo.

Uma delas foi a disputa pela posse do parque.

O parque construído em uma grande área desapropriada, pertencia ao estado, e o município não tinha nenhuma ingerência sobre ele.

Durante muito tempo, a manutenção do parque foi feita pelo estado. Neste meio tempo houve uma forte cobrança para que a administração passasse a ser feita pelo município, já que o estado não estava fazendo bem este trabalho. Foram 25 anos até a mudança. Em 1996 o parque passou a ser administrado e mantido pelo município de Torres e, infelizmente, nada mudou. Piorou, na verdade.

Passaram, então, várias administrações e o parque, já descuidado, foi ainda mais negligenciado. Alguns remendos foram feitos ao longo dos anos, nada muito significativo. O furacão Catarina destruiu o já combalido restaurante, e o parque demorou alguns anos para vê-lo novamente de pé.

De novidade mesmo foi a tentativa de criar uma nova entrada (ou saída) em meio a mata nativa e a construção de um novo pórtico (de gosto e preço duvidosos). E foi só.

O parque faz cinquenta anos em dezembro, e há cinquenta anos tudo era diferente. Uma pessoa de cinquenta anos, era considerado um velho, hoje isso não é mais verdade. Mudou. Muita coisa mudou. Nós mudamos, Torres mudou, a visão do turismo mudou, o modo de tratar a natureza e sua sustentabilidade mudaram.

A verdade é que o parque idealizado lá na década de 70 não tem mais lugar nos dias de hoje. Aquele parque não cabe mais dentro deste. Não adianta maquiar, enfeitar ou colocar um pórtico e cobrar ingresso sem ter um destino certo para esta arrecadação. O parque tem que ser revitalizado e adaptado aos moldes da sociedade atual. Temos que esquecer o modelo antigo. O novo modelo tem que contemplar o turismo e a sustentabilidade, sem conflitos ou exageros.

O que vemos hoje é apenas uma cópia, mal feita, do que já foi. Só trocaram as peças estragadas por peças novas, não mudaram/atualizaram o conceito. Uma pena!

Será que ainda dá tempo para projetar a existência e a longevidade do parque para os próximos cinquenta anos? Talvez, só vai depender da nossa mudança de olhar e da respectiva adaptação necessária.

Vamos mudar?


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